Comentários Maçônicos sobre “Ahiman Rezon - A Constituição dos Maçons Antigos” - Uma ajuda aos que são ou desejam ser Maçons Livres e Aceitos
Autor: Círculo Literário Alécio Pineis
Tempo de leitura: 16min
Imagem retirada do acervo da Loja Alécio Pineis.
Nesta edição, o Círculo Literário Alécio Pineis escolheu o livro Ahiman Rezon, traduzido pelo Irmão Kennyo Ismail e publicado pela editora "A Trolha". Lançada em 1756, a obra explora o contexto maçônico do Século XVIII, focando na disputa entre a "Grande Loja dos Antigos" e a "Grande Loja dos Modernos".
A leitura nos permite refletir sobre a essência da Maçonaria e a importância de questionar tradições sem sentido. Além de elucidar a importância do Real Arco para os Maçons Antigos, aspecto fundamental do Rito de York.
O significado da palavra “Ahiman Rezon”: O título do livro parece ter sido escolhido a dedo pelo autor, possuindo vários significados.
Em hebraico, a palavra tem várias traduções, sendo a principal delas "ajuda a um irmão", que reflete o objetivo do autor em esclarecer os acontecimentos controversos da época.
Biblicamente, “Ahiman” é um personagem do primeiro Templo do Rei Salomão, um porteiro ou guardião do Templo. Ele aparece numa visão fantasmagórica para o autor durante um sonho, que por sinal não passa de uma paródia com objetivo criticar a moda dos Modernos de criar uma origem divina à Maçonaria.
É possível também encontrar outro personagem bíblico com o nome Rezon, Rei da Síria e inimigo de Israel, símbolo de proteção da verdade e deturpação, pois considerado levantado por Deus para disciplinar o rei israelita por seus pecados.
Juntando o significado hebraico e os arquétipos dos personagens bíblicos, é possível interpretar o objetivo do autor com este livro.
Imagem gerada por Inteligência Artificial
Os objetivos do livro: Consolidar a vertente dos maçons Antigos, justificando suas motivações e denunciando as inovações e “falácias” dos Modernos, que introduziram mudanças nos rituais e nas cerimônias da Ordem.
A obra superou em vendas a Constituição dos Modernos, tornando-se o alicerce das constituições de outras Grandes Lojas, como por exemplo as americanas. Como reflexo, a cultura maçônica dos EUA se inclinou em maior parte à prática dos Antigos, influenciando o nascimento do Rito de York.
Ademais, os Maçons Antigos tiveram seu quarto grau, o Real Arco, desmerecido pelos Modernos. Assim, o livro elucida a importância deste grau, que conclui a lenda e os ensinamentos maçônicos. Mais tarde, essa divergência foi uma importante cláusula da unificação dos Antigos e Modernos, que concordaram em o reconhecer.
A tradução para o português: O tradutor Maçom e DeMolay, Kennyo Ismail, é uma figura de destaque no fomento do estudo maçônico, trazendo para o Brasil outros importantes livros, como a "Constituição de Anderson" (Modernos).
Apesar da importância da Constituição dos Modernos para os maçons brasileiros, sendo até mesmo integrada aos estatutos de algumas Grandes Lojas, a obra de Anderson só se tornou amplamente conhecida e acessível em nossa língua recentemente, graças a Kennyo. Isso ressalta tanto a sua significativa contribuição, como, também, a carência de estudos no cenário brasileiro.
Outros livros de Kennyo Ismail
O autor de Ahiman Rezon: Laurence Dermott foi um maçom de origem humilde que atuou por duas décadas como Grande Secretário dos Antigos. Durante seu mandato à frente da Grande Loja, enfrentou inúmeras críticas e censuras dos Modernos. Essas experiências o motivaram a compor esta obra histórica e educacional de grande relevância, consolidando-se como a Constituição dos Antigos.
É visível o tom sarcástico e crítico do autor como forma de combate à Grande Loja dos Modernos. Por meio de sua escrita "ácida", Dermott denuncia as inovações dos Modernos, como por exemplo a moda de iniciar todo o livro maçônico escrevendo a origem mitológica da Fraternidade.
O autor critica fortemente a criação de origens divinas, como por exemplo a Constituição de Anderson, que descreve Adão como o primeiro maçom.
Para Dermott, esse tipo de prática era um "desfavor para a ordem maçônica", enfatizando que o valor real da Instituição está em seu propósito prático no dia a dia, e não em sua origem.
A própria condição humilde do autor foi alvo de ataques, provocando uma resposta direta em Ahiman Rezon. Nele, o autor apresenta uma lista de figuras históricas que também vieram de berços humildes. Isso é contrastado com a predominância de nobres e clérigos na liderança da Grande Loja dos Modernos, sugerindo que eles talvez utilizassem sua posição como um argumento de legitimidade.
Imagem de Laurence Dermott retirada da internet
O ponto central da discussão entre Antigos e Modernos: A análise dos frontispícios de "Ahiman Rezon" (Antigos) e da "Constituição de Anderson" (Modernos) revela pontos centrais da discussão entre as Grandes Lojas.
O frontispício dos Antigos simboliza a lenda maçônica do Real Arco, com figuras bíblicas e símbolos do Rito de York, enquanto que o dos Modernos foca nos fundadores da Grande Loja de Londres e referências gregas clássicas.
Frontispícios retirados das Constituições
Além de não reconhecer o Real Arco, os Modernos inovaram a linguagem e as cerimônias dos outros graus, causando um grande problema de reconhecimento entre irmãos. Chegando ao ponto de proibir, por exemplo, a prática dos rituais antigos.
Além disso, Dermott denuncia a reformulação do Grau de Mestre Maçom, justificada pela falta de proficiência dos fundadores da Grande Loja dos Modernos, que, na verdade, eram “Companheiros de Ofício” (segundo grau).
As Grandes Lojas da Escócia, Irlanda e dos Antigos, firmaram uma parceria para excluir o convívio com os Modernos. Por outro lado, a Constituição de Anderson não faz qualquer menção a essas práticas antigas, afirmando ser a detentora das mais antigas práticas maçônicas, como se as outras Grandes Lojas nem existissem.
Outro ponto de discussão era a "vergonha operativa". Dermott lamenta que os Modernos, vindos de estratos sociais mais elevados, se esforçaram para se distanciar das práticas dos pedreiros. Um exemplo notável era o uso do avental no grau de Aprendiz com a aba para baixo, em contraste com a forma clássica dos operativos, que a usavam levantada.
Outro exemplo, foi a ressignificação do significado da letra "G" dentro do esquadro e compasso. Antes significando "Geometria" (uma arte operativa), foi alterado para "God" (Deus), abandonando a ênfase nas sete artes liberais.
Certamente, há diversas outras questões práticas e políticas envolvidas nesse conflito entre as práticas defendidas por essas Grandes Lojas. Por isso, a leitura dessa importante obra não pode ser dispensada para compreender cada nuance, o que, por sua vez, enriquece o conhecimento maçônico sobre a essência da Ordem.
As Antigas Obrigações e Princípios da Maçonaria: As Antigas Obrigações e Princípios, relatadas por Dermott, podem ser resumidas da seguinte forma: guardar segredo, acreditar em Deus, valorizar a verdade, obedecer ao Estado (exceto em perseguição religiosa ou intelectual), praticar a ajuda mútua e a caridade e tratar todos de forma igual (no nível).
Ele também menciona a importância de atender aos chamados feitos pela Loja sem prejudicar a família ou ocupação, e de não propagar discussões acaloradas em defesa da Ordem com pessoas preconceituosas.
Existem inúmeras outras regras apresentadas no livro que regem maçons, Lojas e Grandes Lojas, as quais se assemelham às antigas normas operativas, merecendo uma leitura aprofundada.
A crítica de Dermott sobre iniciar iletrados: Há um outro ponto interessante abordado por Dermott sobre a iniciação de homens iletrados, pessoas que, apesar de bem-sucedidas socialmente, não sabiam ler e por conseguinte não se dedicavam ao estudo das obrigações e artes maçônicas, o que era visto com maus olhos.
Atualmente, graças à educação básica, o número de iletrados diminuiu bastante, porém, propõe-se a reflexão sobre como a falta de apreço pelo estudo maçônico causa o mesmo efeito.
Em ambas as situações, o maçom que se contenta apenas com a iniciação, sem buscar aprimoramento no estudo maçônico e na prática das virtudes, pode incorrer em excessos ou exageros públicos. Tais comportamentos inadequados podem distorcer a percepção da sociedade sobre os propósitos da Instituição, prejudicando sua imagem e servindo de mau exemplo para os novos iniciados.
Conclusão: Em resumo, esta obra aprimora a compreensão do leitor sobre o papel das Grandes Lojas. Sua relevância torna-se ainda maior ao traçar um paralelo com a Ordem do Século XXI, especialmente no Brasil.
A união das Grandes Lojas dos Modernos e Antigos simboliza as concessões feitas por ambos os lados, demonstrando que o foco central de uma Potência deve ser o maçom individual. Este, por sua vez, deve buscar aprimoramento através dos ensinamentos maçônicos, evitando a tirania do ego.
Tanto a Constituição de Anderson, como a Constituição dos Antigos, não são mais praticadas na Maçonaria, sendo consideradas leis obsoletas. No entanto, a relevância de Ahiman Rezon reside em ter inspirado outras Constituições que ainda estão vivas e em vigor em muitos estados americanos.
O livro de Dermott tem uma grande importância por trazer à luz informações e documentos que poderiam ser facilmente esquecidos ou apagados da história. Aliás, sem esse livro, é bem possível que o Rito de York nem existisse.
Ao criar um marco na história sobre as práticas antigas, Dermott faz refletir sobre a diferença entre o conhecimento maçônico primitivo, baseado na essência, e o conhecimento enxertado por pensamentos e novas filosofias que surgiram no século XVIII, bem como por interesses políticos e pessoais.
O livro também leva a refletir sobre a conduta do maçom e a importância da relação entre irmãos e com a sociedade. Podendo se traçar um paralelo com a filosofia estóica sobre a finitude da vida, sugerindo que os problemas e desentendimentos não têm tanta importância, e que o que realmente importa é levar uma vida moralmente correta.
Ahiman Rezon é um compilado de provocações sobre Maçonaria, questionando o valor de um maçom que não aplica o que aprende. Consolidando o ensinamento do Rito de York na cerimônia de encerramento: os maçons devem partir para suas casas como verdadeiros esquadros morais.
Comentários de: Gustavo Storti Bertelli Alves, Dener Felipe Pereira da Silva, Leonardo Toguia, Claudio Edemur Pereira, Marcel Arceli, Arnaldo Pacini Filho e Marcelo Manfrim.