Fundação das Grandes Lojas de Londres e York
Autor: Vitor Marreira
Tempo de leitura: 12min
Fundação da Grande Loja de Londres Motivação: No ano de 1566, James VI (imagem ao lado), que era então o Rei da Escócia, consolidou uma importante união ao se tornar também o Rei da Inglaterra e da Irlanda, adotando o nome James I. Sua história na Maçonaria começou em 1601, quando foi iniciado na Maçonaria Escocesa, marcando assim o início da influência dos Stuarts na Fraternidade.
Porta retrato feito por John de Critz (1605) de Jaime VI da
Escócia e I de Inglaterra
James I foi sucedido por Charles I, que se casou com uma francesa católica e procurou impor o catolicismo na Inglaterra. Esse período foi marcado por uma guerra civil que resultou na derrota de Charles e em sua execução, levando a Inglaterra a um período republicano liderado por Oliver Cromwell. O Príncipe Charles e a rainha se exilaram na França.
Em 1660, após a morte de Cromwell, os Stuarts retornaram à Grã-Bretanha com Charles II como Rei, trabalhando para reconciliar as diferenças políticas e religiosas. Isso coincidiu com a reconstrução de Londres, liderada pelo notável maçom arquiteto Christopher Wren.
Após a morte de Charles II, seu irmão, o Rei James II, assumiu o trono e tentou impor o catolicismo, tendo um filho chamado James Edward Stewart. Nesse período, a França enfrentava conflitos religiosos, onde os franceses eram forçados a se converterem ao catolicismo ou serem exilados.
Diante dessa situação, os ingleses e escoceses consideraram inaceitável uma sucessão católica ao trono da Grã-Bretanha. O trono passou então para a filha de James II, Mary, e seu marido William, que não tiveram herdeiros. A sucessão continuou com a Rainha Anne, que também não deixou herdeiros. Chegara ao fim o reinado dos Stuarts na Grã- Bretanha.
Jacobitas Escoceses (boinas azul) x Ingleses (Casacos
Vermelhos)
Muitos historiadores sugerem que a fundação da Primeira Grande Loja maçônica pode ter sido uma estratégia política para alinhar a Maçonaria com a nova dinastia alemã dos Hanover, sucedendo os Stuarts, se iniciando com George I. A ascensão deste trouxe inovações conhecidas como Modernas, antagonizando com a Maçonaria praticada pelos antigos. A inovação surgiu da queda do Grão-Mestre Christopher Wren, esse acontecimento deixou os Mestres Maçons em Londres muito desgostosos pois Wren sempre foi um grande exemplo para a Fraternidade, entretanto com sua elevada idade e enfermidades acabou negligenciando as Lojas, em especiais as festas anuais.
Concluo que a motivação da Fundação da Grande Loja de Londres começou de fato com o exílio na França que só aceitariam católicos, os ingleses se viram obrigados a tomar uma atitude para que isso não chegasse na Inglaterra, posteriormente, vimos os Protestantes de Hanover ascenderem no trono, alterando também a Maçonaria e trazendo inovações antagônicas aos Antigos.
Data de fundação: A investigação da história progride frequentemente com historiadores contestando e até duvidando de muitas escritas que antes eram tidas como verdadeiras. Há o exemplo da biografia do Rei Alfred, feita por um monge chamado Asser, que já foi considerada falsificada. Posteriormente, respondeu-se a essa alegação com evidências de que era genuína, apenas para outro historiador mais tarde argumentar que era falsa.
Nesse mesmo espírito crítico, Andrew Prescott e Suan Mitchell Sommers aprofundaram seus estudos sobre a fundação da Grande Loja de Londres em 1717 ou 1721. Em seu estudo, eles enfatizaram que qualquer conclusão tirada deve permanecer sujeita a ser contestada no futuro, à medida que novas evidências surgirem.
A contestação da fundação dessa Grande Loja já foi levantada anteriormente em 1887 por Henry Sadler, que argumentou que era necessário algo mais confiável do que a simples declaração de Anderson para convencê-lo de que as quatro Lojas que supostamente formaram a Grande Loja eram as únicas Lojas em Londres naquela época. Há mais de cem anos, tanto Gould quanto Robbins apontaram como partes da história de Anderson sobre os primeiros anos da Grande Loja são contraditórias com relatos de jornais contemporâneos.
A história da fundação em 1717 não foi mencionada na primeira edição da Constituição de James Anderson de 1723; ela só surgiu em uma nova edição de 1738. Relatórios de imprensa e panfletos sobre a Maçonaria na Inglaterra entre 1721 e 1738 não mencionaram nada sobre a história de 1717 ou "O Ganso e a Grelha". Somente Anderson escreveu sobre a Posse de Antony Sayer como Grão-Mestre, 21 anos depois. Muitas das referências de Anderson a pessoas e lugares estão repletas de inconsistências, divergindo de relatos contemporâneos da imprensa na época.
Um trecho específico da publicação de Prescott e Sommers nos faz refletir: "No final das contas, isso importa? Afinal, estamos discutindo apenas cerca de quatro anos. Que diferença faz se dissermos 1717 ou 1721? Em si, não é grande coisa, mas o ponto importante é que, ao investigar essas questões, estamos melhorando nossa compreensão." Como Maçons, nossa busca deve ser por uma compreensão aprimorada, em vez de simplesmente repetir cegamente o que foi dito há 300 anos, não é mesmo?
Ilustração do Irmão João Guilherme Ribeiro
A Origem da Grande Loja de York Lendas: Segundo as lendas encontradas em manuscritos, a maçonaria teria seu início ao norte da Inglaterra, na cidade de York, onde segundo os contos, teriam se formado as primeiras guildas de pedreiros por volta do ano de 600d.c. É importante notar que na idade média era comum as corporações de ofício possuírem origens que enaltecessem grandeza e nobreza. E a lenda de York, não foi diferente. Segundo o manuscrito de Cooke de 1583, "Houve um importante rei da Inglaterra chamado Athelstan, e seu filho mais novo amava a Ciência da Geometria. Ele sabia que a arte manual do Ofício praticava a ciência da Geometria como os Maçons, e por isso os reuniu em Conselho e adotou a prática desta ciência na especulação, porque na especulação era mestre e amava a Maçonaria e os maçons. Ele mesmo se fez Maçom e lhes deu cargos e nomes que ainda estão em uso na Inglaterra e em outros países." O príncipe Edwin citado acima, teria concedido uma carta constitutiva (926 d.c), em uma assembleia de maçons na cidade de York, com o objetivo de fundar a primeira grande Loja de maçons e tornando-se o primeiro Grão-Mestre.
Historiografia oficial da Inglaterra: Existe uma notável incompatibilidade entre as lendas e os documentos da historiografia oficial da Inglaterra em relação à época mencionada, por volta do ano de 866 d.C. Nesse período, a cidade de York estava sendo dominada por Vikings, o que a transformou em um importante centro comercial e um vital porto fluvial. Os Vikings, provenientes das extensas rotas de comércio do norte da Europa, estabeleceram-se firmemente na região, controlando não apenas a cidade de York, mas também vastas partes da Inglaterra.
Esse domínio viking sobre York e áreas circundantes perdurou por quase cem anos, até chegar ao seu fim no ano de 954 d.C. Foi somente quando o rei Eadred, em seus esforços para unificar os territórios ingleses sob um único reino, obteve sucesso. A unificação da Inglaterra marcou um ponto crucial na história do país, representando o término do domínio viking e o fortalecimento da autoridade central do rei sobre o território.
Retrato retirado do site Phoenix Masonry, onde mostra a
Taverna Ganso & Grelha, uma das fundadoras da Grande Loja da
Inglaterra.
Desde sua origem, as lojas maçônicas eram conhecidas por sua autonomia e independência, operando sob o lema de serem "maçons livres em lojas livres". No entanto, um ponto de viragem fundamental ocorreu em 1721 com o estabelecimento da Grande Loja de Londres e Westminster. Esta Grande Loja central representou uma mudança significativa na estrutura das lojas maçônicas, uma vez que algumas delas optaram por se subordinar a essa autoridade central, enquanto outras permaneceram firmemente comprometidas com sua autonomia.
A Grande Loja de Londres e Westminster desempenhou um papel crucial na padronização dos rituais e práticas maçônicas, criando uma base uniforme para os maçons em toda a Inglaterra. Essa centralização do poder atraiu algumas lojas que buscavam uma maior organização e coesão na Maçonaria.
No entanto, houve resistência a essa mudança por parte de algumas lojas. Um exemplo notável é a antiga Loja do condado de York, que se opôs tanto à centralização do poder quanto às mudanças impostas pela Grande Loja de Londres e Westminster. Essas lojas que resistiram à autoridade central continuaram a operar de acordo com suas tradições locais e rituais específicos.
Em resposta à crescente tensão entre as lojas que aderiram à Grande Loja de Londres e Westminster e as que permaneceram independentes, os maçons da cidade de York fundaram sua própria Grande Loja em 1725. Esta nova Grande Loja se autoproclamou a "Grande Loja da Inglaterra", enfatizando sua independência em relação à Grande Loja de Londres e Westminster. No entanto, a Grande Loja da Inglaterra cessou suas atividades no ano de 1740, contribuindo para um período de complexas dinâmicas e rivalidades dentro da Maçonaria inglesa.
No ano de 1751, maçons Irlandeses, que também estavam descontentes com a Grande Loja de Londres, fundaram a “Grande Loja da Inglaterra de acordo com as Antigas instituições”, que também ficou conhecida como “Grande Loja dos Antigos”. Essa Grande Loja também era intitulada de “Grande Loja de Atholl”, pelo fato dos Duques de Atholl a governarem. Por conta da rivalidade existente entre as duas Grandes Lojas, a Grande Loja de Londres foi apelidada pejorativamente de “Loja dos Modernos”, culpando-os de terem alterado as antigas tradições, enquanto os “antigos” procuravam praticar a forma mais pura de maçonaria.
Em 1756, Lawrence Dermott, Que na época era secretário da Grande Loja dos Antigos, publicou a obra “Ahiman Rezon”, a constituição dos maçons Antigos, nessa obra ele incita que eles deveriam se intitular “maçons de York”, por estarem preservando as antigas tradições da primeira Grande Loja da Inglaterra, que foi reunida em York, pelo príncipe Edwin no ano de 926 d.c.
Em 1761, a Grande Loja de York foi reativada mantendo sua linhagem mais tradicionalista e à preservação de rituais e práticas maçônicas mais antigas. Mantendo assim, sua rivalidade com os “modernos” que preservaram a ideologia de padronização de rituais e modernização deles.
Fotografia da fachada da Grande Loja Unida da Inglaterra
Grande Loja Unida da Inglaterra: Em 1809, os Modernos designaram uma "Loja de Promulgação" com o propósito de alinhar seus rituais com os praticados na Escócia, na Irlanda e, de maneira especial, pelos Antigos. Em 1811, ambas as Grandes Lojas nomearam Comissários, e nos dois anos seguintes, negociaram e concordaram com os termos da união. Em janeiro de 1813, o Duque de Sussex assumiu o cargo de Grão-Mestre dos Modernos, sucedendo seu irmão, o Príncipe Regente, enquanto em dezembro do mesmo ano, outro irmão, o Duque de Kent, tornou-se Grão-Mestre dos Antigos. Em 27 de dezembro de 1813, a Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE) foi oficialmente estabelecida no Salão dos Maçons, em Londres, com o Duque de Sussex, o filho mais novo do Rei George III, como Grão-Mestre. Adicionalmente, uma Loja de Reconciliação foi criada com o propósito de harmonizar os rituais praticados pelas duas antigas Grandes Lojas.
Referências:
DERMOTT, Laurence. AHIMAN REZON: A Constituição dos Maçons Antigos. Traduziada e Comentada por Kennyo Ismail. Editora Maçônica "A TROLHA" Ltda, 2016.
MACHADO JUNIOR, Izautonio da Silva. INTRODUÇÃO AO RITO DE YORK: As Blue Lodges. 1ª edição, Brasília, DF. Editora “No Esquadro”, 2023.
PRESTON, William. Esclarecimentos sobre Maçonaria. Editora ARCANUM. 1772.
COOKE, Matthew. Manuscrito de Cooke, 1861.
PRESCOTT, Andrew; MITCHELL SOMMERS, Susan. 1717 and All That. Circulation Paper – Not for Republication. Disponível em: https://www.quatuorcoronati.com/wp- content/uploads/2018/01/1717-And-All-That-Prescott-Sommers.pdf. Acesso em: 15 de set. de 2023.
TEIXEIRA, Fabiane. Viagens e Vivências, 2019. Conheça York: uma cidade medieval com herança Viking na Inglaterra. Disponível em: https://www.viagensevivencias.com.br/2019/04/york-inglaterra.html. Acesso em 15 de set. de 2023.
FREEMASON. Breve histórico da fundação da Grande Loja Unida de Inglaterra, 2019. Disponível em: https://www.freemason.pt/breve-historico-da-fundacao-da-grande- loja-unida-de-inglaterra. Acesso em 15 de set. de 2023.
LOJA BRASÍLIA. A Grande Loja Unida da Inglaterra. Disponível em: https://www.lojabrasilia.com.br/a-grande-loja-unida-da-inglaterra. Acesso em 15 de set. de 2023.
BERESINER, Yasha. Masonic Education: Lodges of Instruction. Disponível em: http://www.freemasons-freemasonry.com/beresiner1.html. Acesso em 15 de set. de 2023.
UGLE. History of Freemasonry. United Grand Lodge of England, 2023. Disponível em: https://www.ugle.org.uk/discover-freemasonry/history-freemasonry. Acesso em: 11 de set. de 2023.